As skills que não depreciam na era da IA
- Compiladores nos anos 50 não eliminaram programadores, criaram mais demanda. LLMs provavelmente farão o mesmo, mas com uma diferença crucial
- A IA já atingiu o nível suficiente para mudar radicalmente o que se espera de um profissional de software, e o debate sobre AGI é irrelevante
- Tomada de Decisão é uma habilidade que a IA vai demorar mais para atingir de forma satisfatória
- Você vai passar a ser pago pelo seu julgamento. Pela capacidade de decidir caminhos e, principalmente, os que não seguir
- A grande maioria das pessoas tem preguiça de pensar, e é exatamente aí que você se diferencia
A forma de desenvolver software vem mudando, mas os padrões do passado parecem se repetir.
Nos anos 50 e 60, programar em Assembly era coisa de poucos. Com a chegada de linguagens de alto nível como Fortran e COBOL, os compiladores automatizaram os detalhes de baixo nível, permitindo que programadores se concentrassem na lógica e no design. Houve resistência: programadores experientes temiam perder o controle e duvidavam que o código compilado fosse tão eficiente quanto o escrito à mão. No final, os compiladores não eliminaram empregos. Pelo contrário, impulsionaram uma explosão na demanda por programadores, democratizando a programação.
Notou uma similaridade com o momento atual?
Hoje, parece que estamos vivendo uma transição análoga. As especificações que escrevemos estão se tornando esse novo "código de alto nível", e as LLMs + harness, os novos compiladores. Mas existe uma diferença fundamental. Compiladores são determinísticos: dado o mesmo input, sempre produzem o mesmo output. LLMs são fundamentalmente probabilísticas. Por mais que você escreva a spec perfeita, linda e cheirosa, o LLM sempre terá uma probabilidade maior que zero de devolver algo diferente do que você esperava.
E é justamente essa diferença que torna certas habilidades mais valiosas do que nunca.
Pare de debater AGI
"Ahh não, lá vem mais um sabichão falar do que não sabe..."
O que é AGI, afinal? Alguns dizem que é a Skynet. Há quem diga que é apenas uma linha de chegada que avança à medida que nós chegamos mais perto: toda vez que a IA resolve um problema complexo, a gente diz que isso ainda não é inteligência de verdade e empurra a definição mais para frente.
Mas vamos cair na real. No fim das contas, será que importa qual nível técnico de autonomia a IA terá?
A verdade dói, mas precisa ser dita: talvez ela já tenha chegado no nível suficiente para substituir boa parte do que você faz hoje.
O caso do Vinext, a reescrita do Next.js em uma semana pela Cloudflare, mostra isso com clareza. Quase todas as linhas foram escritas por IA. Mas o projeto só funcionou porque tinha uma pessoa excepcional pilotando, decidindo a arquitetura, corrigindo o curso e cercando o processo de determinismo.
Então, em vez de perder tempo debatendo se a IA "pensa" ou se ela é apenas um "papagaio de probabilidades", gaste esse tempo evoluindo as habilidades que ela vai demorar mais para atingir.
Skill 1: Comunicação
Eu já falei em um post anterior sobre como comunicação é a habilidade que mais vai diferenciar profissionais. Mas vale reforçar.
"Seu sucesso provavelmente será determinado por quão bem você fala, por quão bem você escreve e pela qualidade das suas ideias, nessa ordem." Patrick Henry Winston
Não estou falando sobre ser um grande palestrante. Estou falando sobre conseguir entender e ser entendido de forma clara e eficiente, tanto por pessoas quanto pela IA.
Na era em que LLMs são o novo compilador, a qualidade do "código-fonte" que você escreve (specs, contextos, prompts) determina a qualidade do output. Comunicação ruim gera software ruim, não importa quão poderoso seja o modelo.
Skill 2: System Design
Você não precisa ser o Martin Fowler. Mas precisa saber como funcionam os sistemas por baixo dos panos, mesmo que minimamente. Saber desenhar uma solução antes de implementá-la. Saber avaliar trade-offs. Saber comunicar decisões técnicas para quem não é técnico.
LLMs podem gerar código, mas não conhecem as nuances do seu negócio. Não sabem que aquele microserviço vai receber 10x mais tráfego no próximo trimestre. Não sabem que a equipe que vai manter o código tem três pessoas. Não sabem que o SLA exige 99.99% de disponibilidade.
Essas decisões de design (o que construir, como estruturar, o que não fazer) continuam dependendo de pessoas.
Skill 3: Tomada de Decisão
Essa é a que eu mais quero enfatizar. E é a que menos gente está desenvolvendo.
A IA pode te dar cinco caminhos tecnicamente viáveis para resolver um problema. Todos compilam, todos passam nos testes, todos parecem elegantes. Mas só você conhece a cultura da empresa, o apetite de risco do negócio, o histórico de decisões que levaram até aqui, e as nuances que fazem uma solução ser brilhante ou um desastre.
"A IA pode te dar cinco caminhos tecnicamente viáveis, mas só você conhece a cultura, o apetite de risco do negócio e as nuances que fazem uma solução ser brilhante ou um desastre."
Com isso, você passa a ser pago pelo seu julgamento. O seu sucesso passa a estar diretamente relacionado a quão bem você consegue decidir os caminhos a seguir e, principalmente, os que não seguir.
"Em terra de cego, quem tem um olho é rei."
A grande maioria das pessoas tem preguiça de pensar. Nunca me imaginei dizendo isso, mas é aí que você se diferencia. Tomada de decisão estratégica significa avaliar e pesar os riscos. O peso da escolha final e a responsabilidade pelas consequências são as únicas coisas que não vão sair das suas mãos.
O que fazer com tudo isso
- Escreva mais. Documente decisões. Pratique explicar coisas complexas de forma simples, tanto para pessoas quanto para IAs
- Estude System Design. Não o suficiente para passar em entrevistas FAANG, mas o suficiente para desenhar soluções antes de implementá-las
- Pratique tomar decisões técnicas difíceis. Avalie trade-offs. Aprenda a dizer "não" para caminhos tecnicamente viáveis mas estrategicamente errados
- Cerque a IA de determinismo. Testes, CI/CD, linting, type checking. Quanto mais processos determinísticos ao redor do LLM, mais confiável o resultado
- Vista o chapéu de estudante. Esse não é o momento de achar que você já sabe o suficiente. Para ninguém
- Não se apegue a ferramentas. Daqui a dois meses tudo já terá mudado. Experimente tudo, mas lembre que os fundamentos são o que dura
- Não confunda velocidade com qualidade. Gerar código rápido não é o mesmo que entregar software que funciona em produção
- Não ignore os fundamentos. Ferramentas mudam a cada dois meses, mas princípios de engenharia de software persistem
Eu sei, eu sei... "Que papinho de coach hein, Marcelão..."
Pois é. Compre meu curso... Mentira, não tenho um curso. Mas deveria.
Se o padrão histórico se repetir como nos anos 50, a demanda por profissionais não vai diminuir, vai mudar de forma. Quem souber se comunicar, projetar sistemas e tomar boas decisões vai ter uma vantagem desproporcional. Porque a IA amplifica capacidade. E zero vezes qualquer número ainda é zero.
A questão não é se a IA vai mudar a profissão. Já mudou. A questão é: você está investindo nas skills certas?
Vamos trocar ideias sobre engenharia de software, arquitetura e liderança técnica.