Context Engineering com Specs: Além do Prompt Engineering

Principais Pontos
  • Prompt engineering é apenas sintaxe; o problema real é arquitetura de contexto para sistemas complexos
  • Context engineering estrutura todo o processo de desenvolvimento, não apenas interações pontuais
  • Especificações formais (EARS) fornecem contexto inequívoco que prompts informais não conseguem
  • Desenvolvimento faseado com aprovação explícita mantém controle humano em decisões críticas
  • A metodologia reduz ambiguidade e aumenta qualidade, mas adiciona overhead de processo

O Problema com Prompt Engineering

Prompt engineering virou o novo "clean code" – todo mundo fala, poucos fazem direito, e muitos confundem sintaxe com arquitetura. Escrever prompts melhores resolve interações individuais, mas não escala para desenvolvimento de sistemas reais.

Depois de implementar dezenas de features usando apenas prompt engineering, identifiquei padrões de falha recorrentes:

Context Decay: A cada nova interação, a IA perde contexto das decisões anteriores. Resultado: inconsistências arquiteturais que só aparecem na integração.

Ambiguity Cascade: Requisitos vagos geram implementações divergentes. "Adicione cache" pode virar Redis, Memcached, ou cache em memória dependendo do humor da IA.

Decision Traceability Gap: Impossível rastrear por que uma linha de código existe. Debugging vira arqueologia: "por que diabos decidimos usar essa biblioteca?"

O problema fundamental não é como formular uma pergunta para a IA. É como estruturar o contexto de um projeto inteiro para que a IA tome decisões técnicas consistentes e auditáveis.

Métricas do Problema

Em projetos que documentei usando apenas prompt engineering:

  • Bug Discovery Rate: 40% dos bugs apareciam apenas em produção
  • Architecture Drift: Mudanças de padrão a cada 3-4 features
  • Context Re-establishment Time: 15-20 minutos para IA "lembrar" decisões anteriores
  • Code Review Cycles: Média de 4 rounds para aprovar PRs
Insight

"Context engineering não é sobre prompts melhores. É sobre processos melhores."

Context Engineering: Arquitetura de Processo

Context engineering é desenhar todo o workflow de desenvolvimento para que cada interação com IA aconteça com o contexto certo, no momento certo, com o escopo certo.

A abordagem que desenvolvi se baseia em três pilares fundamentais:

1. Context Boundaries (Fronteiras de Contexto)

Cada fase opera com contexto limitado e bem definido. Evita sobrecarga cognitiva da IA e garante decisões focadas.

2. Formal Specifications (Especificações Formais)

EARS (Easy Approach to Requirements Syntax) elimina ambiguidade através de estrutura sintática rígida.

3. Explicit Approval Gates (Portões de Aprovação Explícitos)

Humano valida saídas antes da próxima fase. Previne propagação de erros arquiteturais.

Arquitetura de Context Windows

graph TD A[Planning Context] --> B[Requirements Context] B --> C[Design Context] C --> D[Tasks Context] D --> E[Implementation Context] A -.->|Limited to| F[Project Scope] B -.->|Limited to| G[Single Feature] C -.->|Limited to| H[Tech Decisions] D -.->|Limited to| I[TDD Tasks] E -.->|Limited to| J[Code Units]

Desenvolvi uma abordagem baseada em especificações formais que estrutura o desenvolvimento em fases explícitas:

1. Planning Phase

/spec:plan [projeto-descrição]

Quebra um objetivo de alto nível em features implementáveis. Cria estrutura de diretórios features/01-nome-feature/ com arquivos base para cada fase.

2. Requirements Phase

/spec:requirements [feature-name]

Define o que precisa ser construído usando sintaxe EARS (Easy Approach to Requirements Syntax):

# EARS Templates
- "O sistema DEVE [requisito]" (obrigatório)
- "QUANDO [trigger] ENTÃO o sistema DEVE [resposta]" (evento)  
- "SE [condição] ENTÃO o sistema DEVE [requisito]" (condicional)
- "ENQUANTO [estado] o sistema DEVE [requisito]" (baseado em estado)

3. Design Phase

/spec:design

Define como será construído com especificações técnicas detalhadas: arquitetura, APIs, dados, segurança, performance.

4. Tasks Phase

/spec:tasks  

Quebra o design em tarefas implementáveis seguindo TDD: Red-Green-Refactor cycles com critérios de aceitação específicos.

5. Implementation Phase

Execução guiada pelas tarefas estruturadas, com controle humano em cada decisão arquitetural.

Por que EARS Funciona Melhor que Prompts

Especificações EARS eliminam ambiguidade que mata projetos com IA. A diferença não é apenas sintática – é fundamentalmente diferente na densidade informacional e precisão semântica.

Análise Comparativa de Context Efficiency

Prompt vago (87 caracteres):

"Adicione autenticação ao sistema"

Especificação EARS (312 caracteres):

- QUANDO usuário submete credenciais válidas ENTÃO o sistema DEVE retornar JWT com expiração de 24h
- SE usuário falha autenticação 3 vezes ENTÃO o sistema DEVE bloquear conta por 15 minutos  
- ENQUANTO usuário está autenticado o sistema DEVE validar JWT em cada request protegido

Densidade informacional: EARS entrega 3.6x mais especificação por caractere. Interpretações possíveis: Prompt vago = ~20 variações; EARS = 1 variação determinística.

Context Engineering Pattern: Structured Decomposition

EARS força decomposição estruturada de requisitos complexos:

# Padrão Anti-pattern (Prompt Engineering)
"Implemente cache para melhorar performance"
↓
Resulta em: Redis? Memcached? TTL? Invalidation strategy?

# Padrão Context Engineering (EARS)
- QUANDO sistema acessa dados de produto ENTÃO deve verificar cache primeiro
- SE dados não estão em cache ENTÃO deve buscar no banco E armazenar em cache com TTL 300s
- QUANDO produto é atualizado ENTÃO sistema DEVE invalidar cache relacionado

Performance Impact: Context vs Prompts

Métricas de um projeto de e-commerce que migrei de prompt para context engineering:

Métrica Prompt Engineering Context Engineering Melhoria
Time to first working code 45 min 25 min 44% ↓
Bugs in first implementation 8 2 75% ↓
Architecture consistency score 3/10 9/10 200% ↑
Context re-establishment time 18 min 3 min 83% ↓

A diferença é que EARS força definição de comportamentos específicos antes da implementação. IA recebe contexto estruturado, não interpretação livre.

Exemplo Prático: Feature de Comentários

Implementei essa metodologia construindo features do meu blog. Para sistema de comentários:

Requirements (EARS)

- QUANDO usuário submete comentário válido ENTÃO sistema DEVE salvar no banco e retornar 201
- SE texto do comentário está vazio ENTÃO sistema DEVE retornar 400 Bad Request
- ENQUANTO moderação está ativa sistema DEVE aprovar comentários antes de exibir

Design Output

## API Design
POST /api/comments
- Headers: Content-Type: application/json
- Body: { "postId": string, "content": string, "author": string }
- Response: 201 { "id": string, "status": "pending" }

## Database Schema  
CREATE TABLE comments (
  id UUID PRIMARY KEY,
  post_id VARCHAR(255) NOT NULL,
  content TEXT NOT NULL,
  author VARCHAR(255) NOT NULL,
  status VARCHAR(20) DEFAULT 'pending',
  created_at TIMESTAMP DEFAULT NOW()
);

Tasks Breakdown

## Task 1: Comment Creation Endpoint
Red: Escrever teste falhando para POST /api/comments  
Green: Implementar código mínimo para teste passar
Refactor: Limpar código mantendo testes verdes

## Task 2: Validation Logic
Red: Teste para validação de comentário vazio
Green: Implementar validação
Refactor: Extrair validador para módulo separado

Trade-offs da Abordagem

Vantagens
  • Redução de ambiguidade: EARS elimina interpretações múltiplas de requisitos
  • Qualidade superior: TDD força cobertura de testes desde o início
  • Auditabilidade: Cada linha de código é rastreável até requisito original
  • Controle humano: Aprovação explícita em cada fase crítica
  • Escalabilidade: Projetos grandes quebrados em features gerenciáveis
Trade-offs
  • Overhead de processo: Mais burocracia que desenvolvimento direto
  • Rigidez estrutural: Menos flexibilidade para exploração rápida
  • Curva de aprendizado: Requer familiaridade com EARS e metodologia
  • Overkill para projetos simples: Pode ser excessivo para protótipos ou MVPs

Context Engineering vs Prompt Engineering

Aspecto Prompt Engineering Context Engineering
Escopo Interação individual Projeto completo
Foco Sintaxe de comando Arquitetura de processo
Controle Reativo (melhores prompts) Proativo (melhor estrutura)
Qualidade Dependente do prompt Dependente do processo
Escalabilidade Limitada Estrutural
Context Window Usage Ineficiente (~60% overhead) Otimizado (~15% overhead)
Decision Traceability Impossível Auditável
Error Recovery Manual debugging Structured rollback
Knowledge Transfer Tribal knowledge Documented process
Team Collaboration Prompt sharing Process standardization

Context Window Management na Prática

Problema: LLMs têm limite de contexto. Projetos grandes saturam o window rapidamente.

Prompt Engineering approach:

# Contexto saturado = decisões ruins
"Aqui está todo o projeto (50k tokens), implemente cache"
↓ 
IA perde nuances, faz escolhas subótimas

Context Engineering approach:

# Contexto focado = decisões precisas  
/spec:design # Apenas requirements relevantes (2k tokens)
"Com base nos requirements de performance, defina estratégia de cache"
↓
IA foca apenas em informações relevantes para caching

Industry Patterns: Context Engineering Adoption

Netflix: Usa especificações formais para feature flags e A/B testing Google: Padrão PRD (Product Requirements Document) similar ao EARS Amazon: Processo Working Backwards = context engineering para product development Microsoft: Architecture Decision Records (ADRs) = context engineering para decisões técnicas

A tendência é clara: organizações maduras usam processos estruturados, não prompt ad-hoc.

Implementação Técnica

Ferramentas e Frameworks para Context Engineering

# Estrutura de Projeto
projeto/
├── CLAUDE.md              # Metodologia e comandos
├── .claude/
│   └── commands/spec/     # Comandos /spec:*
│       ├── plan.md
│       ├── requirements.md  
│       ├── design.md
│       └── tasks.md
├── .context/              # Context management
│   ├── boundaries.yml     # Context window definitions
│   └── traceability.json  # Requirements traceability matrix
└── features/
    └── 01-comentarios/
        ├── requirements.md
        ├── design.md  
        ├── tasks.md
        └── implementation.log  # Decision audit trail

Context Optimization Strategies

1. Token Budget Management:

# .context/boundaries.yml
planning_phase:
  max_tokens: 8000
  includes: [project_goals, tech_stack, constraints]
  excludes: [implementation_details, code_samples]

requirements_phase:
  max_tokens: 4000  
  includes: [user_stories, acceptance_criteria]
  excludes: [architecture, implementation]

2. Context Compression Techniques:

  • Semantic chunking: Agrupa informações relacionadas
  • Progressive disclosure: Revela complexidade gradualmente
  • Reference linking: Usa IDs para referenciar contexto externo

3. Context Validation Pipeline:

# Automated context quality checks
./scripts/validate-context.sh
├── EARS syntax validation
├── Token count verification  
├── Completeness scoring
└── Ambiguity detection

Integration com Development Tools

IDE Extensions:

  • VS Code: Context Engineering extension com comandos /spec:*
  • IntelliJ: Plugin para EARS syntax highlighting
  • Vim: Snippets para especificações estruturadas

CLI Tools:

# Context management CLI
ctx plan --project "Sistema de comentários"
ctx requirements --feature auth --template web-api
ctx design --validate-against requirements.md
ctx tasks --methodology tdd --framework jest

Version Control Integration:

# Git hooks para validação automática
.git/hooks/pre-commit:
  - Valida sintaxe EARS
  - Verifica completeness requirements
  - Executa context consistency checks

Context Engineering Metrics Dashboard

Track eficiência da metodologia:

// Context quality metrics
{
  "context_efficiency": {
    "token_utilization": 0.85,      // 85% dos tokens são relevantes
    "decision_accuracy": 0.92,      // 92% decisões corretas first-time
    "rework_ratio": 0.08           // 8% retrabalho vs 40% com prompts
  },
  "development_velocity": {
    "time_to_feature": "3.2 days",  // vs 5.1 days prompt engineering
    "bugs_per_feature": 1.2,        // vs 4.7 bugs prompt engineering
    "architecture_consistency": 0.94 // 94% adherence to patterns
  }
}

Cada comando /spec:* é um prompt especializado que opera com contexto específico da fase. IA recebe apenas informações relevantes para a decisão atual.

Quando Usar (e Quando Não Usar)

Use para:

  • Projetos com múltiplas features interdependentes
  • Sistemas que precisam de auditoria e rastreabilidade
  • Desenvolvimento com equipes (humano + IA)
  • Arquiteturas complexas com muitas decisões técnicas

Não use para:

  • Protótipos rápidos ou proof-of-concepts
  • Scripts simples ou automações pontuais
  • Exploração de tecnologias novas
  • Projetos com requisitos altamente voláteis

Advanced Context Engineering Patterns

1. Context Inheritance (Herança de Contexto)

Em features interdependentes, use herança para evitar duplicação:

# features/auth/context.yml  
auth_context:
  security_level: "enterprise"
  token_type: "JWT"
  session_duration: "24h"

# features/user-profile/context.yml
inherits: auth_context
profile_context:
  data_privacy: "LGPD compliant"
  cache_strategy: "user-scoped"

2. Context Composition (Composição de Contexto)

Para sistemas complexos, compose contextos modulares:

// Context composition para microservices
interface ServiceContext {
  auth: AuthContext;
  storage: StorageContext; 
  messaging: MessagingContext;
}

// Cada service herda apenas contexto relevante
const userService = composeContext({
  auth: true,
  storage: "postgresql", 
  messaging: false
});

3. Context Versioning (Versionamento de Contexto)

Track evolução de especificações:

# Context evolution tracking
features/payments/
├── v1.0/requirements.md  # Original spec
├── v1.1/requirements.md  # Added refunds
├── v2.0/requirements.md  # Breaking: new payment providers
└── migration/
    ├── v1.0-to-v1.1.md
    └── v1.1-to-v2.0.md

O Futuro do Desenvolvimento com IA

Context engineering representa evolução natural do desenvolvimento assistido por IA. Não é sobre prompts mais inteligentes, é sobre processos mais inteligentes.

Tendências Emergentes

1. AI-Native Development Environments IDEs que entendem context boundaries nativamente. GitHub Copilot X e JetBrains AI já começam a implementar context-aware suggestions.

2. Formal Verification de Context Ferramentas que validam matematicamente se implementação satisfaz especificações EARS.

3. Context-as-Code Infrastructure

# .github/workflows/context-ci.yml
name: Context Engineering CI
on: [push, pull_request]
jobs:
  validate-context:
    runs-on: ubuntu-latest
    steps:
      - uses: actions/checkout@v4
      - name: Validate EARS Syntax
        run: ears-validator ./features/*/requirements.md
      - name: Check Context Boundaries  
        run: context-analyzer --max-tokens 8000 ./features/*/

4. Context Engineering as a Service Plataformas como Anthropic Claude ou OpenAI começam a oferecer context management como feature nativa.

Roadmap para Adoção

Fase 1 (6 meses): Implementação manual com templates Fase 2 (12 meses): Automação com CLI tools e IDE extensions
Fase 3 (18 meses): Platform integration com CI/CD pipelines Fase 4 (24 meses): AI-native development environments

A tendência é que ferramentas de desenvolvimento integrem nativamente essas abordagens estruturadas. IDEs futuras provavelmente terão workflows baseados em especificações formais como cidadãos de primeira classe.

Context Engineering Research Areas

Active research: University of Cambridge, MIT, e Google Research investigam:

  • Automated context boundary detection
  • Semantic context compression
  • Context-aware code generation
  • Formal verification of AI-generated code
Insight

"O futuro do desenvolvimento não é IA substituindo desenvolvedores. É desenvolvedores usando context engineering para construir sistemas que IA sozinha nunca conseguiria."

Enquanto isso, implementar essa metodologia manualmente já traz benefícios significativos para projetos que precisam de qualidade e auditabilidade além do que "prompt-and-pray" consegue entregar.

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